Para João Guilherme Vargas Netto, que apoia o pré-candidato a prefeito de São Paulo Guilherme Boulos (deputado federal do PSOL-SP), o momento político da campanha é de ?agregação, não de fricção?. Ele criticou ? não durante seu transcurso ? a greve dos metroviários do início de outubro, assim como o atrito que gerou a demissão de Jean Gorinchteyn, ex-secretário estadual de Saúde que se desligou da pré-campanha de Boulos porque este não nomeou o grupo Hamas ao condenar os atos terroristas que desencadearam o atual conflito do Oriente Médio.
Ao acentuar a defesa da agregação, na etapa atual da candidatura ? o momento da fricção chegará com a campanha propriamente dita ?, João Guilherme dá uma volta no parafuso e sugere que Boulos inicie discretamente uma sondagem em torno da escolha da também pré-candidata Tabata Amaral, deputada federal do PSB por São Paulo, como vice de sua chapa, que iria assim para uma pole-position indiscutível.
João Guilherme, consultor sindical em São Paulo, faz política e pensa política desde o início da década de 1960, quando entrou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da então Universidade do Brasil (atual UFRJ), no Rio de Janeiro, e no Partido Comunista Brasileiro, PCB. Na década de 1970 passou a atuar em São Paulo. Perseguido, exilou-se na França. Voltou no início da década seguinte à capital paulista, onde desenvolve há muitos anos um trabalho de consultoria política junto a sindicatos de trabalhadores. Ele escreve artigos para vários veículos, como, por exemplo, o Mundo Sindical.
João Guilherme abre suas reflexões sobre a campanha para prefeito de São Paulo, a um ano do enfrentamento nas urnas, com a constatação de que existe uma concomitância entre a volatilidade da escolha do prefeito, ora de esquerda, ora de direita, e a relativa invariância da composição da Câmara de Vereadores, onde se constituíram verdadeiros feudos eleitorais.
Eis a entrevista, concedida a Mauro Malin em novembro de 2023.
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Que apreciação geral você faria sobre o processo das eleições municipais em São Paulo?
João Guilherme Vargas Netto ? O colégio eleitoral do município de São Paulo é um dos maiores colégios eleitorais unitários do Brasil. Ombreia com estados em geral. É uma população eleitora muito grande. E, para o eventual leitor carioca, ou fluminense, eu faço uma síntese, que é uma caricatura, dizendo que São Paulo capital não tem o Norte e o Sul, como o Rio de Janeiro. Mas tem o Norte e o Sul do Rio de Janeiro mais a Baixada Fluminense. O eleitorado paulistano é, além de um dos maiores do Brasil, extremamente complexo.
Devo dizer que eu realmente não acompanho continuadamente o processo eleitoral em São Paulo. Mas formei ideias gerais que tento aqui transmitir.
Uma das características das votações depois da democratização no Brasil aqui em São Paulo é uma invariância de cerca de 40% do eleitorado não votando. Ou não comparecendo ou votando nulo e em branco. Isso é uma síntese muito caricata, ressalto. Dos 100% dos eleitores, descontando esses 40% não eleitores, tem-se 60%. E ao longo do processo eleitoral esses 60% se dividem eleitoralmente em 20, 20 e 20, naquele esquema, também, sobretudo muito esquemático, de 20, 20 e 20 para esquerda, centro e direita.
Esses fatos numéricos abrem uma cogitação interessante, no meu entendimento, que é o ziguezague nas eleições de Executivo, ou seja, de prefeito de São Paulo. Eu digo ziguezague porque o polo predominante nas eleições para prefeito oferece a vitória à esquerda, ao centro e à direita, alternadamente. Há uma troca, pensando historicamente, de posições políticas vitoriosas na disputa pelo Executivo.
Um verdadeiro ziguezague relacionado com os 20, 20 e 20 que eu mencionei. Com a característica de que os 20 do meio, levando em conta a classificação de polos de esquerda e de direita e um meio, não é a ?mosca cocheira? do Gramsci [velha metáfora gramsciana: o inseto pousa na orelha do cavalo e acredita que pode, aos gritos, lhe comandar a direção]. É uma mosca cocheira que, ao picar o cavalo, indica o rumo que o cavalo vai tomar. E, no Executivo, o cavalo saltita. Vai para um lado e vai para outro.
Essa característica do ziguezague ? não ideológico, mas posicional ? da eleição do prefeito contrasta com a fixidez, vamos dizer assim, da eleição do Legislativo, que é muito cumulativa. Não temos os saltos que existem na eleição do Executivo no quadro do Legislativo. A Câmara dos Vereadores vai mantendo a sua estrutura, a sua realidade, com pequenas diferenças, para cá e para lá, mas com uma característica cumulativa ao longo do tempo.
O Poder dos Grandes Grupos Econômicos e Financeiros
E eu quero destacar, nessa acumulação do Legislativo, três características: o crescimento, ao longo das eleições, do poder ? representado por vereadores eleitos ? dos grandes grupos econômicos e financeiros da cidade. A começar do setor imobiliário e urbanístico, que tem representantes diretos, com presença crescente no Legislativo; o setor de transporte, que é visivelmente representado por um número cada vez maior de vereadores; e até mesmo o setor de segurança. Enquanto setores como saúde, educação e outros têm a representação corriqueira, digamos assim.
Ao longo dos anos praticamente desapareceu, no corpo legislativo, a presença do operário fabril, embora haja representações permanentes de trabalhadores do setor de educação, de serviços ? bancários etc.
Segunda característica: o esvaziamento do caráter despachante dos vereadores. Com as subprefeituras, esses aspectos que eu chamo despachantes foram assumidos pelos subprefeitos. E ?liberaram? os vereadores dessa função, ou diminuíram o papel deles na função ligada à rua, ao pequeno problema.
E a terceira característica é a criação, ao longo do tempo, de verdadeiros feudos eleitorais, pessoais e familiares. Isso diz respeito a esquerda, centro e direita. Cresceu o papel e o peso, no conjunto do poder legislativo, desses feudos.
Qual seria, dentro dessa visão, o papel possível de movimentos sociais?
João Guilherme ? Os movimentos sociais participam do processo político. Principalmente no período atual o identitarismo tem tido alguma projeção, mas não de forma proporcional à vida que têm na cidade. Exemplo: o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, movimento social relevante, não tem passagem significativa no Legislativo da cidade. Talvez tenha tido até mais passagem nos Executivos em que foi acolhido do que no próprio Legislativo.
Assim como o movimento sindical dos trabalhadores, especialmente o dos trabalhadores fabris, tem atualmente pouca presença no Legislativo. Eles têm, entretanto, um papel na sociedade. Atualmente muito atraídos por esse dogma identitário, representações identitárias.
Mas isso não tem influído naquela trajetória, que eu chamo de cumulativa, do Legislativo. Não vejo, por exemplo, uma disparada, para meio a meio, da presença feminina na Câmara de Vereadores. Ou uma presença ampliada do que seria típico de movimentos sociais, independentemente da participação em partidos que os acolham. Dou um exemplo: mesmo o fenômeno evangélico, que teve nas eleições para os Conselhos Tutelares [1º de outubro] um papel fundamental, não tem esta relevância na Câmara Municipal. Evidente que tem presença, e agita. Mas a gente não vê na Câmara paulistana os dramas encenados, por exemplo, na Câmara dos Deputados, a respeito dos temas religiosos.
Eleições Municipais serão tangidas pela polarização nacional
Que peso você atribui à eleição paulistana no contexto do processo político nacional?
João Guilherme ? Inelutavelmente, pelo seu tamanho e pela polarização nacional, as eleições para prefeito e vereadores na cidade de São Paulo, no ano que vem, serão tangidas decisivamente pela polarização nacional e ao mesmo tempo influirão poderosamente nela.
Não há como escapar da nacionalização das próximas eleições municipais em São Paulo. Qualquer tentativa de municipalização pura que não leve em conta essa pressão vetorial do tema nacional, principalmente da polarização, provavelmente levará a erro por parte de quem trabalhar com a ideia do ?município puro?, do município em primeiro e único lugar.
Isso levaria você a sugerir que forças políticas, sejam elas quais forem, se abstivessem de propor algo parecido com o que seria uma terceira via, ou uma candidatura de centro?
João Guilherme ? Vamos diferenciar. O Legislativo eu ponho naquele capítulo da acumulação. E penso que haverá muito mais peso do que eu chamo os feudos ? até mesmo o surgimento de feudos identitários: evangélicos, femininos, negros etc. No Executivo, esse caráter de ziguezague mostra que o centro, aqui em São Paulo, é um dos componentes da disputa. Não é 20 contra 20 polarizados e os 20 do meio decidem. Não. O ziguezague envolve esquerda, direita e centro se revezando. Até mesmo o centro adquirindo em certas situações o papel de esquerda ou em outras o papel de direita.
Então, não vejo a necessidade da ideia de uma postura centrista em São Paulo. Ao contrário, eu acho que é muito importante afirmar-se enquanto polo, porque haverá essa dinâmica pressionada pela polarização nacional, porém ampliar, na base de um programa municipal que leve em conta as questões nacionais ? mas não as questões identitárias ou de costumes, e sim as questões de interesse mais geral.
Não se trata de buscar uma alternativa de candidato centrista, mas que o candidato do polo que eu defendo, o da esquerda, faça uma política hábil, de convencimento daqueles 20%, que não são o adversário. É a busca de um candidato do polo da esquerda se aproximando de maneira crível do centro do eleitorado, levando em conta, sempre, essa dualidade entre Executivo e Legislativo em termos de viravolta ou permanência.
Imaginemos um programa sendo aplicado pela esquerda em São Paulo em determinada direção, com determinados traços de solidariedade, de generosidade, seriedade. Que efeito isso teria nacionalmente?
João Guilherme ? Qualquer programa sério para o município de São Paulo é um programa nacional por definição. Levando em conta o tamanho do eleitorado, o peso da cidade e o embate que vai se dar nos marcos da polarização que existe hoje no Brasil. Ele tem que ser um momento forte do próprio programa nacional. Em compensação, seria uma utopia haver literalmente um programa nacional aqui, porque nós não temos, por exemplo, o problema da Amazônia, embora tenhamos problemas relacionados com indígenas (estou caricaturizando um pouco).
Acredito que um programa da esquerda, nosso, aqui, tem que ser correto, viável e efetivo no quadro de um programa nacional. Veja por exemplo o Bolsa Família. É uma realidade nacional que existe aqui em São Paulo. Em que medida um programa municipal amplia, complementa, aprofunda, melhora a própria recepção em São Paulo do Bolsa Família. Outro exemplo: levando em conta a situação de desemprego e informalidade em São Paulo, é óbvio que um programa em São Paulo de tarifa gratuita para desempregados tem uma validade nacional impressionante, levando em conta o número de pessoas envolvidas.
São Paulo, apesar desse peso nacional que você salienta, não tem todos os problemas de todas as regiões. Por exemplo, aqui não tem agricultura, agribusiness, a não ser, talvez, a sede de algumas empresas. Ao mesmo tempo, tem agudamente o problema da diminuição do peso da indústria no PIB, e isso se mede também no número de operários. Peço que você, que tem uma grande experiência no convívio e na interlocução com trabalhadores, fale desse quadro do empobrecimento do setor industrial na cidade de São Paulo.
João Guilherme ? Isso é efetivo, e a consequência política é o próprio esvaziamento da presença do operário fabril na Câmara dos Vereadores. É óbvio que não tem agronegócio, mas levando em conta a interação capitalista por excelência ? como você disse, as grandes sedes e as grandes relações financeiras se exercem aqui em São Paulo. Faria Lima é também agronegócio, contempla agronegócio.
Isso reforça a tese de que um programa correto para a disputa municipal em São Paulo tem que incorporar aquela realidade municipal: não tem a base do agronegócio, mas tem a cúpula do agronegócio ? estou trabalhando com os teus termos. Combinado a isso tem os grandes problemas. Saúde, que é um tema geral. Há um problema de desemprego que, felizmente, hoje tem diminuído. Mas há um problema sério de transporte. Pode-se pensar num programa de transporte gratuito para desempregados. Há um problema que não é basicamente municipal, mas tem um reflexo enorme no município, que é a segurança. Há uma série de interações. Uma mão hábil saberia compor um programa de apelo municipal, ?São Paulo em primeiro lugar?, com um apelo projetado no país.
Estou convencido, por exemplo, de que hoje o candidato em que eu pretendo votar, Boulos, deveria trabalhar temas que fossem absorventes, agregadores. E não aceitar, nesta fase, disputas que sejam marginais, ou estrategicamente justificáveis, mas com pouco realismo político na atualidade. A habilidade de trabalhar mais os temas em que ele pode buscar a convergência, a força centrípeta, em detrimento dos temas centrífugos.
Não estávamos até aqui fulanizando a conversa, o que considero uma virtude, mas agora apareceu um nome, e se torna quase obrigatório perguntar que efeitos podem ter manifestações, movimentos, ações, iniciativas como a greve dos metroviários do início de outubro.
João Guilherme ? Eu, pessoalmente, lutei para ver se o bom senso imperava. E abertamente ? embora não publicamente, porque eu adotei a decisão na minha vida de jamais tomar posição contra uma greve uma vez decretada ? assinalo, obviamente, o erro que foi essa greve, seja pela época, seja pela motivação, seja sobretudo pelas consequências. Ela poderá custar caro à candidatura da esquerda.
Desse ponto de vista, e é para isso que eu chamo a atenção, é preciso que o candidato Boulos, que tem uma trajetória espetacular ? e, registre-se, é a primeira vez que o polo da esquerda não casa com o partido PT como o nome indicado ?, tome cuidado para buscar temas de agregação e não temas de fricção. Exemplo típico é esse da greve. Ela já foi errada, em termos sindicais, em seus objetivos. Mais errado ainda foi o apoio imediato do Boulos a ela. Só causou ruído. Em vez de agregação causou fricção.
Claro que o tema, a privatização, não é um tema municipal por excelência. Mas vai ter um grande rebatimento levando em conta o peso da direita no governo do estado de São Paulo. Que tenta atrair o atual prefeito para um combo em que o elemento direita, com suas ramificações, entre elas a privatização, tenha papel.
Como você vê a convivência do Boulos, se ele ganhar, com o governador?
João Guilherme ? Se o Boulos ganha, é sinal de que fez uma boa política. E é sinal de que terá derrotado, eu acredito, os arreganhos do bolsonarismo. Isso vai cair como sopa no mel nas possibilidades de relação dele com o governador. Que é um vacilante, do ponto de vista, no caso, do bloco derrotado, que seria o bolsonarismo. Imagine-se o seguinte cenário: o prefeito de São Paulo tem uma convivência ótima com o presidente da República. Não terá com o governador de São Paulo, em temas em que pode haver convergência de interesses?
Dou um exemplo concreto. É impossível a Prefeitura se arrogar o papel de resolver o problema da Cracolândia. Para enfrentá-lo, o prefeito de São Paulo tem que estabelecer relações com o estado e sua política de acolhimento, de segurança em geral, etc. Assim também vários programas regionais do governo do estado que têm incidência na capital. Cito o exemplo da Cracolândia, que é, para mim, evidente.
O tema da Segurança é um espinho cravado na cultura da esquerda
Não caberia aumentar o peso da prefeitura, de alguma maneira, nas questões da segurança pública?
João Guilherme ? É óbvio que o tema da segurança é um espinho cravado na cultura da esquerda. Porque nós trabalhamos com a ideia da insegurança como um fator social. No entanto, há o problema da bandidagem. E obviamente a Prefeitura não tem condições, enquanto Prefeitura, de enfrentar e resolver o problema. Vai ter que ser um efetivo condomínio federal, estadual e municipal.
Não acho, por exemplo, que seja uma solução inteligente o puro e simples armamento e a disponibilidade da Guarda Municipal para ações repressivas diretas. Acho que isso conduziria a um erro.
Prefeito deve procurar resolver os problemas dos munícipes
Imagino a possibilidade de um prefeito se fazendo porta-voz das angústias da sua população e batalhando para que as instâncias concernidas se mexam. Eu não sou a favor de intervenção federal em segurança pública. Acho que isso é um abismo...
João Guilherme ? Não acho que isso é uma questão de princípio, de invariância. Depende da situação. No meu entendimento depende até mesmo das equações e projeções políticas vigentes a cada momento em tal ou qual instância. Não descarto nem ?encarto?, como falaria o Requião [Roberto Requião, ex-governador do Paraná e ex-senador].
Você falou que o Prefeito tem que criar condições... Eu diria que sobretudo ele tem que procurar resolver os problemas do munícipe. Esses problemas são de ordem pessoal, de ordem coletiva, de ordem ideológica e de ordem prática. Se ele faz a lição de casa no município, mesmo quanto àquelas questões em que o município dependa do estado, ou que se correlacionem com o estado, dependa do governo federal ou se relacionem com o governo federal.
Ele tem que pensar, por exemplo, nas escolas municipais. Pensar nas creches municipais, pensar nos centros de saúde na cidade, relacionando-os com o SUS federal. Ou seja, tem que interagir. O objetivo seria, enquanto prefeito, cumprir aquelas tarefas que estão inscritas na própria Lei Orgânica do município, na Constituição do estado e na do país.
Ele tem que melhorar a escola de São Paulo capital, melhorar as creches, melhorar os postos de saúde, obviamente articulado com o SUS, melhorar os temas de segurança aqui em São Paulo relacionando-se com o estado e com o governo federal.
Estamos em outubro de 2023. Não tenho ainda clareza, na dinâmica das questões, sobre que grandes temas vão aparecer. Suspeito que vão aparecer temas fortes.
Digo que a vocação do prefeito deve ser prefeitar. E exatamente ao prefeitar bem ? por exemplo, um prefeito nosso jamais poderia cair naquela armadilha do João Doria [prefeito em 2017-18] da ?farinata? (dar farinha para as crianças na escola e na creche) ? é que ele estará criando uma interação com a Câmara de Vereadores, com o poder estadual, com o poder federal e sobretudo com as populações.
Como eu assinalei no início, nós temos aqui em São Paulo uma rede muito vasta, molecular, de subprefeitos. Imagine o potencial de um prefeito que queira fazer bem, a capacidade de trabalho que ele encontrará nessas subprefeituras, para molecularizar a ação da Prefeitura. O prefeito não cria emprego. Mas pode criar uma situação que atraia aqui para São Paulo empregos de serviços modernos, qualificados, não poluentes etc. Ele pode ter uma política com essas características que não seja guerra fiscal, seja algo efetivo.
São Paulo perde a vocação industrial, é certo. Mas pode adquirir uma vocação de indústria 5.0, 6.0, 7.0. Afinal, Singapura é uma ?cidadona?, também. E tem todos os atributos que a gente almeja para a própria transformação do capitalismo em São Paulo.
Não sei dizer quais serão os eixos temáticos que vão evoluir. Mas sei que exceto a barbeiragem da greve dos metroviários, que você citou no início, o Boulos está corretamente tateando o ambiente. A etapa que estamos atravessando, corretamente, eu acho, é, mesmo independentemente das composições partidárias ? quem vai ser a vice dele, etc. ? a de tatear o ambiente.
Levando em conta a experiência dele, específica, que é a falta de habitação, ele precisa se assenhorar de vários outros aspectos. São Paulo tem, por exemplo, uma forte comunidade acadêmica. Que tem que ser mobilizada em áreas da cidade. Tem uma rede sindical que, embora seja acossada, é extremamente favorável. Um elenco grande de movimentos sociais, mesmo aqueles marcados pelo identitarismo, também forte. Tem também um setor financeiro poderoso, provavelmente o mais poderoso do Brasil. Isso tudo tem que ser tateado.
Mas caso se adote hoje uma política de fricção e não de agregação, produz esse incidente, que é tolo, do assessor que se demite por causa da guerra do Oriente Médio. Decorrente de uma visão de fricção, não de uma visão de agregação.
Acho que com essa ideia dele de se aproximar dos problemas, no fundamental ele está trabalhando o que é possível. O que eu recomendaria fortemente é não fricção, mas agregação. Até mesmo porque o período de fricção é cronologicamente muito à frente. Ele vai ser evidente quando começar verdadeiramente a disputa eleitoral. O momento da disputa de ideia contra ideia, proposta contra proposta. O momento hoje é de agregação, evitando as fricções. Isso não é hipocrisia. É aquela velha ideia do funil do lado largo. Ele tem que ser colocado do lado largo para o líquido verter direito.
Boulos deveria procurar uma conversa séria com Tabata
E o que dizer das candidaturas?
João Guilherme ? Não quero comentar agora o leque das candidaturas porque ainda não está muito estabilizado. É claro que vamos ter o prefeito disputando, Boulos disputando, um candidato ou não do bolsonarismo raiz, Tabata Amaral e alguns outros. Mas esse quadro merece ainda ser trabalhado.
Deixe-me falar abertamente minha opinião. Acho por exemplo que o Boulos deveria, nem que fosse discretamente, procurar uma conversa séria com a Tabata. O quadro ainda não está consolidado. Ainda não é a época da disputa mesmo. Portanto, era a hora de buscar temas de convergência. Por exemplo, a campanha da Tabata tem dois eixos aparentes, atualmente: mulher e educação. Em ambos a conversa do Boulos pode ser importante. Estou aqui especulando. Estamos em outubro. Por que não pensar a possibilidade de ter uma Tabata de vice? Estou avançando em cogitações que não são a minha competência: em termos de eleições eu sou completamente tendente a erro.
Suponha uma manobra Tabata, levando em conta esses dois temas, mulher e educação. Essa manobra poderia ser aceita pelo PT, que hoje pretende indicar o vice, porque quando o Lula apoiou, num acordo, a candidatura do Boulos, ele apoiou dizendo: Eu te apoio, mas para você vencer. Acho que um acordo Boulos-Tabata, assim como Lula-Alckmin, colocaria o nosso campo numa pole-position na disputa. Aqui já se trata de opiniões políticas, que variam como ?piuma al vento?. É isso que eu chamo agregação contra fricção. O pior, hoje, seria abrir uma guerra contra a Tabata.
O Boulos terá que levar em conta, sempre, aquele fenômeno que eu caracterizei no Legislativo, das lideranças pessoais ou familiares formando feudos. Tem que se prestar atenção a essa feudalidade municipalista.
Enfim, quando a gente não está na direção política toda opinião prática fica destituída de fundamento. Mas tem certas coisas que eu acho essenciais. Essas eleições casarão a vertente municipal com uma vertente nacional ideológica. Não é identitarismo, nem o campo cultural. Repito: o momento atual é de agregação, não de fricção. Mesmo em relação ao atual prefeito, hoje eu recomendaria mais a exigência do cumprimento de suas funções do que a fricção em torno da eventual candidatura dele. Eu preferiria cobrar o que ele não anda fazendo, portanto, junto com a população, exigir que o faça, do que hostilizá-lo diretamente. É uma estratégia que, eu acho, porque a estou formulando, mais inteligente.
Não sei ainda os eixos que vão corporificar as campanhas. Suspeito que haverá habitação, saúde, segurança, transporte, a ver como as coisas vão se armando. Em relação a emprego, quero mencionar aqui uma ideia original da Marta Suplicy [prefeita entre 2001 e 2004], de transformar São Paulo numa cidade industrial inteligente, não poluente. Foi a primeira a formular, embora a ideia não tenha ido à frente.
Acredito que essa ideia da dicotomia entre Executivo e Legislativo ? cogitação minha, não acho que tenha sido explicitada em geral ? é heurística, para armar a cabeça.
E, vamos dizer assim, tem um espelho no fato de que o bloco de Lula foi derrotado no primeiro turno de uma maneira muito severa, resultando daí um Congresso adverso, e ganhou no segundo a Presidência, o que evitou o mal maior.
João Guilherme ? Temos que levar em conta essa dinâmica. A campanha de prefeito vai polarizar, mas vai ser também uma campanha de vereadores. E mais uma coisa: era preciso que alguém estudasse com seriedade as eleições para os Conselhos Tutelares. Houve um ensaio da direita de aprendizado de busca de votos. Aí é que eu digo: o dirigente prático do partido não estaria só formulando a ideia. Estaria trabalhando esse tema. Acho que o próprio Boulos deveria estar atento a isso. Qual é o quadro e como foram os procedimentos nessas eleições para os Conselhos Tutelares? Que foram quase prévias das eleições para vereador.