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 Entrevista com Carlos Melo



O cientista político Carlos Melo prevê que no segundo turno da eleição para prefeito da capital paulista ocorrerá um embate de rejeições. A maior parte dos eleitores votarão contra um ou outro dos candidatos. Isso decorre do significado nacional do pleito e da chamada polarização da opinião pública do país. Melo, que é professor universitário, aponta como indicador da nacionalização das municipais de São Paulo em 2024 o empenho do presidente Lula e do ex-presidente Bolsonaro em favorecer os candidatos que apoiam. 

  

?Lula interveio na montagem da chapa de Guilherme Boulos mediante a convocação de Marta Suplicy para vice e o retorno dela ao PT. Marta simbolizaria a união da experiência na vida pública com a relativa juventude do deputado federal pelo Psol?, aponta. 

  

Ela tem alta popularidade em áreas da periferia mais pobre de São Paulo, ao mesmo tempo que sua participação na campanha pode atenuar os ataques ao histórico de Boulos como líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto da capital paulista, ao qual seus adversários atribuem caráter extremista. Seus maiores legados são o bilhete único no transporte público e a construção dos primeiros CEUs (Centros Educacionais Unificados) em áreas até então totalmente desprovidas de educação de qualidade. 

  

Voto volúvel 

  

Na visão de Melo, a eleição paulistana vai depender da situação nacional, porque combina uma lógica local com a questão nacional. ?A capital?, relembra, ?não tem um padrão definido de voto, diferentemente das demais regiões do estado de São Paulo, que são conservadoras, na maior parte dos casos?. 

  

Na cidade de São Paulo, desde o restabelecimento das eleições diretas para a Prefeitura (1985), antagonistas quase sempre se sucedem (ver ?A eleição municipal organiza o jogo?). ?Os dois que se reelegeram foram vices que tinham governado pouco tempo (Gilberto Kassab, 2008, e Ricardo Nunes, 2020). Kassab tem um tino político impressionante. Não precisava ter padrinho. Nunes precisa, não é Kassab. Não tem o mesmo tino político nem é carismático. Mas tem padrinho. É Bolsonaro?, diz o cientista político. 


A máquina da Prefeitura é um componente muito importante da campanha, além de dinheiro, que Nunes encontra junto a Milton Leite, presidente todo-poderoso da Câmara de Vereadores contra quem, entretanto, foram feitas denúncias graves (?Mensagens mostram ligação de Milton Leite com suspeitos de elo com o PCC?). 

  

Tábata, Marçal, Datena 

  

Carlos Melo atribui o recuo de Tábata Amaral (PSB) em pesquisas ao lançamento da pré-candidatura de Pablo Marçal (PRTB, Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, criação do falecido Levy Fidelix, candidato à presidência da República cujo rótulo era a construção de um ?aerotrem? entre Campinas, São Paulo e Rio). Marçal atraiu a simpatia de Jair Bolsonaro, de quem se proclama admirador. 

  

Em terceiro lugar nas pesquisas, o apresentador de televisão Datena suscita uma primeira e primordial pergunta: ?Será mesmo candidato??, questiona Melo. O cientista político não dá como certo que o jornalista da Rede Bandeirantes chegue ao segundo turno. ?O eleitorado é constituído por 100% dos eleitores. Não são 120%. Onde Datena pode crescer, se os campos popular (Boulos/Lula) e populista (Nunes/Bolsonaro) já estão ocupados? Ele seria talvez um candidato do campo popularesco, que não tem o mesmo peso dos outros?, argumenta. 

  

Segurança pública 

  

Certo é que a entrada de Datena na corrida eleitoral contribui para dar mais relevância ao tema da segurança pública, sempre explorado pela direita. Isso obrigará a chapa Boulos-Marta a ter uma proposta de política pública relativa ao tema. Melo supõe que os adversários de Boulos e Marta tentarão criticá-los como, respectivamente, ?invasor? e ?Martaxa? (devido a aumentos de impostos que ela promoveu quando foi prefeita). Ambos deverão ser apodados de ?defensores de bandidos?. E precisarão, diz o professor, encontrar antídotos para esses venenos propagandísticos. Ele antevê que Boulos passará por um ?banho de loja?: roupas, etiqueta etc. ?Surgirá um problema se tentarem transformá-lo em um ursinho de pelúcia, coisa que ele não é?. Informações obtidas por Melo junto à campanha de Boulos sugerem que ele vai privilegiar, em sua pregação eleitoral, a mulher pobre da periferia paulistana, protagonista das dificuldades das famílias em matéria de segurança pública, saúde e educação. E tentará ampliar o diálogo com as mulheres evangélicas. 

  

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(*) Carlos Melo é mestre e doutor pela PUC-SP. Professor em tempo integral do Insper ? instituição privada, sem fins lucrativos, de ensino superior e pesquisa ? desde 1999, dá aulas nos cursos de Sociologia e Política (graduação), Estratégia e Política (mestrado) e Relações Governamentais. Analista político com participação em diferentes veículos de comunicação, palestrante e consultor de empresas nacionais e estrangeiras, é autor, entre diversos artigos e capítulos de livros, de Collor: o ator e suas circunstâncias (Novo Conceito, 2007). 

(**) Mauro Malin é jornalista e historiador.