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Carmen Evangelho*


Florianópolis, nas últimas décadas, sofre um significativo processo de miscigenação, sobretudo na parte insular da cidade. As belezas naturais e a qualidade de vida têm trazido para Florianópolis um grande contingente de brasileiros e estrangeiros. E nem todos trazem consigo o título de eleitor, com direito ao voto, dificultando estabelecer uma relação mais direta entre as propostas alternativas de estilo de vida, que parecem ser majoritárias, sobretudo na Ilha, e o resultado mais conservador das urnas no último dia 6 de outubro.

A cidade teve 1.173 seções para atender a um colégio eleitoral de 410.812 eleitores, compreendendo tanto a sua parte insular quanto a região continental. O comparecimento às urnas foi de 71,95%, com uma abstenção de 28,05% que ficou acima da média nacional de 21,7%. No entanto, as abstenções somadas aos votos nulos e brancos representaram os 32,65% da população que perderam o interesse em escolher o prefeito da ?Ilha da Magia?.


Abaixo vemos a distribuição do número de votos e o percentual de votos para prefeito e vereadores.

        

Eleitores - 410.812/100

Prefeito - 276.673/67,3

Vereadores - 261.012/63,5

Nulos - 10.955/2,7

Brancos - 7.964/1,9

Abstenções - 115.220/28,0


Total - 295.592/72

         

Para o cargo majoritário concorreram 9 candidatos. E para as 23 vagas do poder legislativo municipal se inscreveram 308 candidatos, divididos em 13 partidos políticos.

Abaixo, a relação dos candidatos a prefeito, número de votos, partido político e % dos votos recebidos. Sendo que os votos para prefeito somaram 93,6% dos votantes e 67,3% do colégio eleitoral. Vemos abaixo o percentual de votos recebidos por cada candidato.



TOPÁZIO - PSD/58,5

MARQUITO - PSOL/22,2

PEDRÃO - PP/7,1

DÁRIO - PSDB/6,1

LELA - PT/5,8

PORTANOVA - AVANTE/0,2

CARLOS MULLER - PSTU/0,1

BRUNNO DIAS - PCO/0

MATEUS SOUZA - PMB/0

                

Houve 74,76% de votos em urna para os 23 vereadores, onde 53,8% da população tem direito a voto. Abaixo vemos o número de vereadores eleitos de cada partido e o percentual correspondente.


PL - 5/20,3

PSD  - 5/18,5

PSOL - 3/13,4

MDB - 3/13,0

UNIÃO BRASIL - 2/11,3

PT - 2/10,1

REPUBLICANOS - 2/9,2

                

TOTAL - 23         


O candidato Topázio, eleito no 1º turno, embora tivesse conquistado 58,5% dos votos em urna, obteve 39,4% dos votos do colégio eleitoral. E, somente 27.700 votos a mais do que a soma de todos os que se isentaram[1] de escolher um candidato, que correspondeu a 134.139 votos. A diferença de votos (110.330 votos) entre o eleito e o candidato do PSOL, que ficou em 2º lugar, representou 82,25% da soma dos que se isentaram da escolha de um candidato.

Na eleição ao executivo, a distribuição de votos entre os partidos de esquerda e de direita, e o percentual correspondente, dos 71,9% dos votantes do colégio eleitoral são apresentados a seguir.


Executivo

     

Votantes - 295.592/100

Direita - 198.925/67.3

Esquerda - 77.748/26,3

Brancos - 7.964/2,7

Nulos - 10.965/3,7

Brancos e Nulos - 18.919/6,4


Já no caso da votação para o legislativo, os 63,5% do colégio eleitoral votaram da seguinte forma.


Legislativo

?     

Votantes - 261.012/100

Direita - 205.113/78.6

Esquerda - 55.899/21,4


Das informações acima podemos tirar alguns pontos para pensarmos linhas de ações políticas, organizadas ou não pelos partidos políticos:


1.        Esta análise, embora reconheça a vitória dos partidos de direita na cidade, relativiza o tamanho desta vitória e aponta para um problema muito grave: o desânimo da população em participar das decisões políticas. ?O tanto faz como tanto fez? na escolha das representações executivas e legislativas municipais foi de quase 1/3 dos eleitores florianopolitanos;

2.        Durante o processo eleitoral, a decisão do PT de não compor com o PSOL em torno do nome do candidato Marquito, atual deputado estadual e, anteriormente, eleito vereador por 2 mandatos consecutivos, resultou em muitas críticas do eleitorado de esquerda, inclusive dentro do próprio PT, provocando ? em alguns setores ? uma certa apatia eleitoral decorrente da sensação de que ?vamos perder?;

3.        Aumentou 1 cadeira na bancada do PT para a próxima legislatura. No entanto, os partidos de esquerda representam somente 21.7% dos vereadores, quórum que dificulta a aprovação de matérias mais democráticas de interesse da população;

4.        O candidato do PSOL enfrentou dificuldades com o discurso para furar a bolha da esquerda, patinou um pouco na formulação das propostas e, durante o tempo inicial da campanha, passou a sensação de que se dirigia somente ao seu eleitorado cativo;

5.        O candidato Topázio, atual prefeito, apoiado em uma eficiente assessoria de marketing digital, ficou conhecido como o prefeito tik tok, dominou a propaganda eleitoral, ratificando o papel decisório das redes sociais nas eleições;

6.      Nas cidades de menor porte, mesmo sendo capital do estado, a rede de relações sociais é muto forte, superando a institucionalidade necessária para a legitimidade do processo eleitoral, ficando difícil distinguir quando era o prefeito e quando era o candidato nos eventos públicos;

7.      Há uma enorme carência de formação para a cidadania. Os partidos de esquerda, antes mais preocupados com este tema, parecem ter abdicado desta responsabilidade e a frágil organização da sociedade civil não consegue assumir este papel. Nos últimos anos, as bandeiras desfraldadas pela esquerda em defesa dos direitos humanos foram uma constante, em detrimento das questões mais corriqueiras do cotidiano que afetam diretamente a vida e o bolso dos trabalhadores: segurança, transporte, moradia, educação etc. Não ocorreu uma ligação direta da questão dos direitos humanos com os temas do cotidiano, deixando uma forte sensação para a população de que são coisas excludentes, ou se fala de direitos humanos ou se fala de problemas do cotidiano.

Para pensarmos o papel da esquerda neste processo parece ser necessária uma aproximação com a população jovem, a apropriação de novos discursos que expressem os anseios e as necessidades daqueles que se informam pelas redes sociais, entender as novas expressões culturais que se apresentam nas ruas, traduzir o antigo discurso (que não se faz mais ouvir) por plataformas que possam expressar e representar as dificuldades do cotidiano, sem ? é claro ? perder os princípios de igualdade de oportunidades que sempre sustentaram o discurso da esquerda.  

Não é uma tarefa fácil, sobretudo adotar as novas linguagens digitais pode significar um rearranjo, mental quebrando paradigmas sem perder os conceitos fundamentais como instrumentos de mudança social. O desafio está posto... há muito a construir!


* Economista, doutora em Sociologia. Fundou e coordenou o Centro de Memória Sindical. Foi membro da Comissão Tripartite de Emprego e Formação Profissional do SG-10 do Mercosul. Coordenou o Sine-SP, foi membro do Grupo de Referência Tripartite de Certificação Profissional da OIT/MTb. Tem vários livros e trabalhos publicados. Fez consultorias internacionais. Atualmente preside o Conselho Municipal de Política Cultural de Florianópolis.



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[1] abstenções+brancos+nulos