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 Entrevista com José Cláudio Souza Alves


O sociólogo e professor José Cláudio Souza Alves, estudioso da violência e das milícias na Baixada Fluminense e no Rio de Janeiro, vê na proximidade entre rivais, no âmbito local, a causa de uma violência mais intensa e aberta nas eleições municipais, para ele o ponto de partida dos arranjos de todo o sistema político brasileiro. José Cláudio sustenta que sempre foi assim. ?É uma lógica na qual a política se dá nesse campo da interação mais próxima, mais individual, mais face a face. É um jogo político que permite muito bem a troca de favores, a troca de interesses, manipulações, controles eleitorais?.  


O sociólogo estabelece distinção entre o Rio de Janeiro, onde a história política e a visibilidade não permitem determinados tipos de acordos praticamente escancarados, e a Baixada Fluminense, onde, ?com o grupo armado se constrói uma trajetória, digamos, político criminal?. É um sistema político mais brutal, embora não falte brutalidade no Rio de Janeiro. José Cláudio se estende ao descrever a realidade miserável do Roseiral, conjunto de comunidades no município de Belford Roxo onde o Comando Vermelho deixou de ter um controle incontrastável e foi submetido às decorrências de um acordo entre o poder local e a milícia. No final da entrevista, diz, com eloquente sarcasmo, que o Brasil da politização de igrejas evangélicas, de acordos entre políticos e estruturas de poder, de um lado, e grupos armados, de outro, é o Brasil que ?deu certo?.  


Eis a entrevista, concedida a Mauro Malin em novembro de 2023.  


Como você enxerga a questão da violência no processo eleitoral municipal?  


José Cláudio ? Toda a lógica política deste país gira em torno exatamente disso. Não é o macro, não é o federal, o estadual, nada disso. Quem determina o federal e o estadual é o processo local. Essa é a lógica política nacional. Governadores, presidente da República, senadores, deputados federais, deputados estaduais têm trajetórias que vão se constituindo a partir de uma lógica local. Porque a política nossa é toda calcada nos interesses de grupos específicos, na grande maioria muito localizados, e, a partir deles, promove ampliações. Sempre foi assim. É uma lógica na qual a política se dá nesse campo da interação mais próxima, mais individual, mais face a face. É um jogo político que permite muito bem a troca de favores, a troca de interesses, manipulações, controles eleitorais. Por que as eleições municipais se tornam muito mais violentas? Porque é nesses locais que a pirâmide política vai se estabelecer. Vai-se ter toda a funcionalidade para ir adiante, nos âmbitos estadual e federal, calcada no jogo de interesses local. Isso vai intensificar muito mais as disputas. É isso que acontece aqui na Baixada Fluminense, em qualquer lugar do Brasil.  


Não tem a ver com o fato de que no âmbito federal se tem uma disputa entre bolsonaristas e lulistas?  


José Cláudio ? Isso, claro, vai acirrar as disputas locais. Mas os que estão no âmbito federal sabem muito bem que o jogo se dá no âmbito local. E vão intensificar essas disputas. Também deputados e senadores vão passar pela estrutura das prefeituras, o Executivo local, que tem muito poder e vai determinar o uso da estrutura pública para a conquista de votos, para o toma-lá-dá-cá. Há todo um processo de manipulação, de controle dos espaços locais. E o local é, a meu ver, o núcleo central da estrutura política nacional.  


 

Um caminho que começa no âmbito municipal  


 Pode-se argumentar: e em 1982, Brizola, no Rio de Janeiro? Os militares tentaram fazer o jogo casuístico do voto vinculado. Tinha-se que votar em todos da mesma legenda. Acharam que o jogo local iria determinar a votação. Brizola fez o inverso. Foi a exceção que confirmou a regra. Era candidato ao governo do estado e colonizou todo o resto das eleições. As pessoas votaram na legenda do PDT para dar a vitória ao Brizola. Inverteu a lógica que os milicos tinham pensado. Que o jogo de interesses locais iria determinar o voto vinculado.  


E a violência é muito maior porque é nessa esfera que se dão as disputas muito localizadas, face a face, as pessoas se conhecem, têm uma aproximação, sabem qual é o jogo de interesses individuais e de grupos muito específicos, locais. Candidaturas que vão depois se projetar para deputado estadual, federal, senador, presidente da República. Tudo isso está colocado no âmbito local. Por isso eu acho que ela é muito mais violenta.  


 E não existe a recíproca?  


 José Cláudio ? Sim, quando se tem um retorno do federal sobre o municipal.  


Uma parcela de nacionalização da eleição municipal, dependendo do lugar?  


 José Cláudio ? Quando se tem uma disputa como a que tivemos em 2022 é óbvio que isso vai rolar. Com um controle muito fino de quem é quem, quem está apoiando quem. Mas o que eu percebo que muda nesse jogo é que todas as trajetórias políticas emergem aí, não vêm de cima para baixo. Tem-se a formação de um caminho que começa no âmbito local. 

Onde há acordos e quebra de acordos: violência 

Vou dar um exemplo. Um miliciano que queira se projetar politicamente, ou alguém vinculado a uma estrutura de extrema direita que apoia milicianos, coloca suas fichas no jogo local, sabe com quem fala, o discurso do ?bandido bom é bandido morto? funciona muito mais lá, porque é onde as pessoas estão sofrendo os problemas na área de segurança. As trajetórias que, mais adiante, vão se projetar partem do âmbito local. Por isso a disputa é mais acirrada e as mortes são mais intensas no período da campanha eleitoral. Porque ali eles se conhecem, ali rolam os acordos e rola também a quebra dos acordos. Quando isso acontece dentro da estrutura miliciana, que eu conheço de perto, a solução vem pela violência. É o principal ambiente no qual eles se movimentam e no qual vão resolver seus problemas. É um ambiente violento.  


Que diferenças você estabeleceria, em sua abordagem, entre cidades de diferentes dimensões? 


José Cláudio ? Vou falar do que é mais próximo a mim, Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. A capital tem algo na faixa de 6,7 milhões de habitantes. A Baixada está na casa dos 4 milhões. O Rio de Janeiro, por sua história política, por sua visibilidade, não permite determinados movimentos no campo que eu analiso, da violência. É um jogo que se dá com uma determinada diretriz, não se dá de forma tão escancarada, no âmbito da violência. Tem uma violência estatal muito forte. Operada por dentro da estrutura da Secretaria de Segurança Pública, já que unificaram nela as secretarias de Polícia Civil e de Polícia Militar, por conta de pressões, de um jogo de interesses do governo federal, que começa a se movimentar buscando se aproximar desse universo e ter alguma interferência para ter algum tipo de ganho no futuro. O Rio de Janeiro é muito mais institucionalizado, tem muito mais visibilidade. Isso não impede que ocorram barbaridades, como pessoas sendo mortas em favelas de forma extremamente cruel, brutal. Mas tudo muito amparado por uma estrutura institucional do Estado e das operações policiais. Quando se vai para a Baixada Fluminense, uma sociedade de menor porte, com uma visibilidade bem menor, já se tem jogo de superexposição do uso da violência. Claro que precisa do institucional, ele vai dar respaldo, mas é uma estrutura mais autônoma em relação ao institucional. É um jogo, de um lado, mais explícito, do uso da força, da violência e da atuação dos grupos armados, que aparecem mais, e de outro lado eles conseguem se proteger mais facilmente dentro da estrutura do Estado. Os candidatos que estão no jogo político lançam mão da atuação dos grupos armados de uma forma mais explícita. Não se verá um prefeito do Rio, em determinados ambientes, fazer menção a tais grupos. Ele vai fazer um jogo muito mais escondido, muito mais camuflado.  


 Trajetória político criminal 


 Aqui na Baixada, não. Aqui se lança mão do vínculo com o grupo armado, mais comumente a milícia. Com o grupo armado se constrói uma trajetória, digamos, político criminal. Não quer dizer que se trate de um criminoso, mas de alguém que estabelece relações muito próximas, uma linha direta com pessoas ligadas à estrutura criminal. E que se vale disso para controlar áreas, para ter votação, para ter grana, para ter projeção, para resolver problemas, disputas, conflitos, nesses locais. 


O vínculo com um grupo armado é muito bem-recebido na Baixada. Na capital isso até existe. Acontece, mas precisa de intermediários, de um jogo com outras figuras, com toda uma mediação de estruturas sociais, de movimentos sociais, associações de moradores, comunidades, ambientes sociais, para fazer a mediação com grupos armados. Tem uma zona intermediária entre o indivíduo que é candidato, que tem vínculos com a estrutura de grupos armados, e a população que vota, aquele que está na base. É mais sofisticado, tem mais estofo.  


 Já na Baixada eu sinto que essa zona intermediária até existe, é ocupada por estruturas intermediárias. Por exemplo, as igrejas evangélicas. Elas entram muito nessa zona intermediária, mas são muito, muito próximas do universo direto daquelas pessoas lá na base. Digamos que seja algo mais fino, não é tão denso. E a relação dos grupos armados com os políticos é mais direta, mais explícita, não necessita muitas vezes dessa mediação toda.  No Roseiral, em Belford Roxo, Comando Vermelho sob controle  


 

Como se traduz para o leitor a relação entre disputa municipal e segurança pública, que é um assunto estadual?  


José Cláudio ? Vou dar um exemplo concreto. Muito interessante, porque tem múltiplas dimensões e está inserido nessa dimensão extra local, tanto estadual como federal. É o exemplo de Belford Roxo. Uma cidade de meio milhão de habitantes, algo em torno de 300 mil eleitores. O governador do estado [Cláudio Castro] queria se reeleger. Existia em Belford Roxo um grupo político que se aproximava muito da prática política que ele defende, dos interesses dele. Ele tinha uma visão muito nítida de que naquele município a questão da violência era um eixo central. Existia há mais de dez anos naquele município um grupo armado, o Comando Vermelho, que dominava um conjunto de bairros muito pobres chamado Complexo do Roseiral, abrangendo Lote 15, Vale do Ipê, Roseiral, Bacia, Itaipu, várias localidades num eixo muito pobre, muito miserável. Eles olharam para isso e pensaram: Aqui é uma área em que nós temos a expressão do confronto da segurança pública permanentemente contra o Comando Vermelho. É uma expressão de violência cotidiana que resulta em mortes, tiroteios, doenças, de uma população que convive com o sofrimento, com o estresse absoluto dessas operações. O Comando Vermelho tem como estratégia de sobrevivência operações de confronto, não negocia facilmente, não baixa a guarda. Estabelece uma lógica de atuação sem acordo, porque o Comando Vermelho tem um ethos anti-Estado, antiestrutura policial. Isso é da história do próprio Comando Vermelho. Ali se teve um cenário que foi absorvido e utilizado na política de segurança pública. Como? Rolou um acordo, que tem o atual prefeito, Wagner Carneiro, popularmente conhecido como Waguinho, nesse momento ainda aliado com um deputado estadual importante dessa cidade, deputado que tem seus vínculos com a estrutura de grupos armados, especificamente da milícia, Márcio Canella. Esses dois foram procurar o governador e disseram: O senhor tem interesse em ter sua base eleitoral expandida aqui na cidade? Se tem interesse, temos uma proposta que também nos interessa. É a da manutenção da estrutura de poder numa cidade com meio milhão de habitantes e 300 mil eleitores. É um peso que ninguém do mundo político vai desprezar.  Ali começa toda a negociação. Qual é o projeto? É o seguinte: temos que exercer um controle sobre esse grupo armado naquela comunidade, para que possamos estabelecer uma nova base de negociação com eles, e eles possam trabalhar para nós, e não trabalhar contra nós. E para fazer isso temos que subjugá-los, fortalecendo uma estrutura que nem é uma estrutura miliciana imediata, é muito mais uma estrutura institucionalizada, da própria formação da segurança pública naquela cidade. Passando principalmente pelo batalhão da Polícia Militar lá, o 39º Batalhão. A partir desse acordo, em janeiro de 2021, eles criam no Complexo do Roseiral um Destacamento, e vão, com base nessa estrutura de segurança pública, apoiada em homens, salários, armamentos, viaturas, estabelecer uma lógica de confronto. São vários confrontos, com muitas mortes. Obrigaram o Comando Vermelho a fazer o jogo de aceitação de uma nova normatização daquele território, em função dos interesses que a estrutura policial vai colocar, com muito mais força. Porque não existe tráfico sem a atuação do Estado, em nenhum lugar do Brasil, sem o grande fiador, que é o Estado; ele é que vai dar a garantia de que [o acordo] vai funcionar, que vai ter droga, que vai ter mercado; é a lógica do arrego, do suborno, essa é a lógica que vai ganhar. Antes não existia, agora existe uma estrutura armada de confronto que vai prejudicar muito os interesses do Comando Vermelho, não só com as mortes, mas em relação à venda das drogas, que começa a ser afetada por essa lógica de confronto.  


 Cabos eleitorais fardados  


 Constitui-se um novo acordo, que vai funcionar para 2022. Primeiro, é um balão de ensaio para que toda a estrutura de segurança pública daquela cidade se transforme numa estrutura de ganhos eleitorais. Como assim? Os comandantes, a hierarquia da Polícia Militar, os soldados, que estão na base da estrutura da PM, todos esses atuando no território a partir da experiência do Roseiral, vão se transformar eles próprios em cabos eleitorais.  


Eles são a garantia de que a segurança pode chegar até você. Segurança, leia-se aqui controle territorial armado, acordos com o Comando Vermelho, acordos com o Terceiro Comando e principalmente o funcionamento das milícias. Todos esses grupos armados vão ter a mediação da estrutura de segurança pública, para estabelecer acordos e ganhos para todos no território.  


Só que isso vai fortalecer principalmente os candidatos da prefeitura que fez acordo com o governador e que está agora dizendo para o governador o seguinte: se você fizer esse acordo conosco em 2021, em 2022 você vai receber o nosso apoio, e em 2024 nós seremos apoiados por você. Essa é a estrutura de funcionamento da lógica política aqui descrita. E é isso que vai acontecer. Os candidatos, a esposa do prefeito, Daniela Carneiro, candidata a deputada federal, e Márcio Canella, que é o deputado estadual, candidato à reeleição, se transformam nos mais votados de todo o estado. Tiveram em torno de 54% dos votos da cidade para os cargos que estavam disputando.  


Então, a estrutura de segurança pública em Belford Roxo teve visivelmente uma super expressão por conta dessas duas figuras, que têm histórico de relações com milícias, de apoio a milicianos, enquanto candidatos, está no noticiário local. E que têm o discurso da extrema direita, as bandeiras de todos os milicianos, armamentismo, ?bandido bom é bandido morto?, limitação para os negócios do tráfico de drogas, fazendo acordos mas estabelecendo que tipo de acordo é esse.  


Todo esse universo de Belford Roxo acaba também, devido a um conjunto de situações, tendo reflexos na dimensão federal, na eleição para a presidência da República em 2022. E é muito interessante como se deu. Aqueles que estavam unidos, o Wagner Carneiro e o Márcio Canella, se dividem, dizem que é briga, que é confronto, eu acho que pode ser tudo isso e também acordo do tipo ?vamos nos dividir, você apoia fulano, eu apoio beltrano, pouco importa quem ganhar a nossa estrutura sobrevive e permanece?.  


Wagner Carneiro vai apoiar Lula, a partir de uma costura feita pelo André Ceciliano, do PT, então presidente da Assembleia Legislativa, que vai fazer o grande acordo para aproximar o Waguinho do Lula. E a partir daí Daniela Carneiro vira ministra do Turismo. Saindo desses acordos de negócios que o PT vai costurar, e que depois não se sustentaram devido a um conjunto de fatores. Aí entram as avaliações do desgaste, as jogadas de ampliação de base parlamentar com a incorporação do União Brasil, de outros partidos, Republicanos, que apareceram no cenário, enfim, todo um meio de campo costurado muito habilmente para que a Daniela Carneiro saísse do ministério. Tem todo um jogo de interesses no universo de Belford Roxo.  


 Miséria e drogas  


Você disse que o Roseiral é um conjunto de comunidades paupérrimas. Como o Comando Vermelho atua num lugar paupérrimo? Qual é a vantagem? O que eles fazem ali? Vendem drogas para gente que vem de outros lugares. Se as pessoas são paupérrimas, não vão nem consumir.  


 José Cláudio ? Não. Ao contrário. Os maiores consumidores de drogas hoje no Brasil são esses. A classe média consome lá onde ela está. Hoje a população pobre movimenta o tráfico de drogas, por incrível que pareça. Como fazem isso? Eu não sei. É toda uma economia. Não é a classe média que vai lá. O Roseiral é miserável. Eu já estive lá algumas vezes. Conheci um padre que era pároco lá, uma pessoa fantástica, o padre Costanzo Bruno, já faleceu, pessoa histórica na Baixada Fluminense. O Comando Vermelho tinha um controle territorial minucioso. Ninguém saía, ninguém entrava sem o controle deles. Eles não sobrevivem com muito dinheiro. Vão fazer o tráfico funcionar ali num baixo padrão. Mas é um baixo padrão que os faz sobreviver e permite o acesso da droga a essas populações mais pobres.  

É uma economia que se conecta com outras ilegalidades. Roubo de carga, roubo de transeuntes, roubo de casas. Esse é o esquema mais comum do Comando Vermelho. Diferente do esquema miliciano, que vai para outros mercados, muito mais amplos, porque tem muito mais respaldo, mais proteção da estrutura do Estado. O Comando Vermelho não tem essa proteção. Eles vão sobreviver em mercados mais reprimidos, mais reduzidos, com volume de negócios menor, mas sobrevivem. Eles vão, por exemplo, colonizar outras áreas onde querem atuar, e vão se armar para isso. E a base deles vai estar na comunidade de onde eles vêm. É a miséria que impulsiona a expansão do Comando Vermelho. Eu vejo aqui em Seropédica, os garotos miseráveis com um Três Oitão, com um revólver na mão, tentando montar a boca de fumo, disputando território com a milícia, que tem fuzil. Quando a milícia vem atacar o pessoal do Comando Vermelho é um massacre. E recorrentemente eles vêm. O Comando Vermelho, porém, não desiste nunca. Tenta permanentemente montar seus negócios aqui. E permanentemente seus integrantes são mortos. O Comando Vermelho sobrevive nesse cenário de muita repressão, muita violência, muita crueldade, de apoio institucional da estrutura de segurança pública à milícia.  


 Circuito fechado: do Estado para o Estado  


Qual é a vantagem para a milícia, dentro do relato que você fez, de submeter o Comando Vermelho a determinada normatização, como você chamou? Qual é a vantagem econômica disso, já que se trata de um território muito pobre? Como é possível que esse povo que vive na miséria faça parte da base financeira da milícia?  


 José Cláudio ? Imagine um circuito fechado. O Estado cria políticas compensatórias para os mais pobres. Tem-se o Bolsa Família, Minha casa, Minha Vida, tudo que envolve benefícios para essa população. E, de certa forma, essas políticas compensatórias representam ganhos para ela. Tudo isso são fontes, recursos aos quais os mais pobres conseguem ter acesso, de alguma maneira. Aqueles que ocupam espaços dentro do Estado têm as informações, sabem onde estão os beneficiários das políticas públicas, e de certa forma esse recurso financeiro vai servir como base para esses grupos atuarem. Pode-se dizer que é muito pouco. Mas isso não importa. A milícia não trabalha com uma lógica de grande quantidade, mas, sim, superpulverizada. Eles preferem ganhar 50 reais por mês de uma quantidade grande de pessoas, que no somatório vai dar um valor significativo, do que ganhar muito em cima de poucos. A lógica deles é diferente de outras lógicas criminais que a gente conhece. Eles pulverizam. Vão pegar dinheiro de manicure, cabeleireiro, pipoqueiro, mototáxi. E se os mais pobres representam uma base pulverizada de ganhos, a partir das políticas públicas compensatórias, isso também entra na estrutura. Há relatos a esse repeito. A milícia ganha de todas as formas: gatonet, gás, água, vende terrenos em prestações a perder de vista. E essas famílias se mobilizam. Muitas vezes não é só a grana de um, é a grana de vários membros envolvidos nas políticas compensatórias. Existe aí um circuito fechado: do Estado para o Estado. Estado que estimula, participa da estrutura dos grupos armados, estabelece relações, desenvolve políticas públicas compensatórias. E lá na ponta ele vai recolher parte das verbas públicas a partir de seus esquemas criminais de grupos armados. A holding da milícia é outro patamar. Ela não extrai sua grana exclusivamente do tráfico de drogas ou do roubo. Faz a extração de uma base muito mais ampla e diversificada. Porque aí são vários mercados. Entra com transporte clandestino, com tudo que a gente conhece: venda de gás, gatonet, de água, em alguns casos de eletricidade, imóveis, terrenos. Ela tem o respaldo institucional do Estado para montar essa holding muito mais sofisticada, diversificada e ampla, com uma base pulverizada muito maior do que o Comando Vermelho, que está dentro dos limites do tráfico de drogas e do roubo. O Comando Vermelho tem aprendido com a milícia, tem começado a aplicar essa mesma estratégia. A gente escuta falar em gatonet, transporte coletivo de pessoas, cobrança de taxa por parte do Comando Vermelho. Isso eu já escutei, em alguns relatos. Está engatinhando nisso. Não domina.  


 

Apertar o cinto  


Como os moradores de localidades muito pobres têm alguma sobra de dinheiro para pagar esses achaques? Como eles se viram? Já são miseráveis e vão ter que comprar o gás mais caro, pagar a condução mais cara. Como isso funciona?  


 José Cláudio ? Eles vão restringir dentro de sua própria estrutura de vida. Para alguns é uma restrição. Para outros é ganho. Um grupo armado desses que permanece por um período mais longo numa região vai não só normatizar como estabelecer uma estrutura de ganhos, de status social, de resolução de problemas. A aproximação dessa população à estrutura de poder armado, a essa estrutura político-criminal, por um lado tira, extrai dessa população coisas, mas, por outro lado, oferece coisas, dá ganhos para essa população. Não para todos os seus integrantes. Para alguns. Mas esses que recebem, ganham, vão estar dentro da estrutura, vão ter suas dimensões de jogo de poder com os que não recebem. Tudo está muito permeado, misturado, não é simples separar. É um conjunto de interesses. E quem não tem poder ali, não tem tanta grana, não vai se indispor com a estrutura de poder, vai negociar suas dívidas.Um exemplo. Um amigo meu tem um tio que está numa área miliciana. Esse tio tinha um terreno grande, que não era usado. De repente, a milícia vai lá e toma aquele terreno, para vender, para distribuir para aqueles vinculados a ela. Esse amigo meu vai para lá com o tio para dizer: Não, isso aqui tem dono. E aí vai rolar uma negociação. Nessa negociação uma parte do terreno vai sobrar para o tio, para construir o que ele quiser. E a outra parte vai ficar distribuída para esses interesses milicianos. Então, aqueles próximos da estrutura miliciana vão se beneficiar de alguma forma. E os mais distantes entram na fila de interesses que estão sendo jogados ali. Pode ser a participação em clubes ? os milicianos controlam clubes nessas áreas. Terrenos são os mais buscados. Comprar terreno para construir a casa própria. É uma solução para o resto da vida daquela família. É o bem maior que todos buscam nessa estrutura. Tem os mais pobres, que terão alguma dificuldade, mas vão estabelecer uma lógica de negociação, de obtenção de ganho, de parcelamento de dívidas ou de evitar conflitos de interesses com outras pessoas naquela região. Tudo isso passa a ser regulado por essa estrutura de grupo armado. Os relatos que me chegam são esses. Pode-se conseguir, por exemplo, vaga, como terceirizado, na Prefeitura de Belford Roxo. Numa OS [Organização Social] que presta serviços na área da saúde. Agora começam a chegar relatos de uma dança de cadeiras. Mudanças de pessoas numa área terceirizada. Isso vai rolar para as eleições de 2024.  


 Um corpo na rua  


Pergunto especificamente sobre os paupérrimos do Roseiral.  


José Cláudio ? O padre Costanzo Bruno me contou, faz algum tempo, um cidadão da Bacia, uma das comunidades mais pobres daquela região ? ?Bacia?, você já sabe, quando chove, acabou-se, fica tudo dentro dágua ?, tem um infarto e morre. O corpo está lá, caído no chão, na rua. A população ao redor desse corpo tentando impedir que os porcos comam o corpo. Isso já dá a dimensão de que universo é esse. Eles chamam os bombeiros para pegar o corpo. Passa um dia, passam dois dias, os bombeiros não vão, dizem que é uma área de risco, não podem ir lá. No terceiro dia os bombeiros pedem 400 reais para ir lá pegar o corpo. Aquela população tinha 400 reais? Ninguém tinha. Quem é que deu? O Comando Vermelho. Pode-se objetar que o Comando Vermelho não é a milícia. Pouco importa. É um grupo armado que está lá, tem algum dinheiro, decorrente de algum comércio que eles estabelecem, e da lógica do tráfico de drogas, dos valores estabelecidos, paga ?arrego?, paga os funcionários do tráfico. Eles de alguma forma têm grana. Pagaram isso. Os bombeiros foram lá e pegaram o corpo. A irmã desse cara tem que fazer hemodiálise três vezes por semana. Ela também não tem dinheiro. Quem paga o mototáxi que vai levar essa senhora para fazer hemodiálise? O tráfico de drogas. Ou seja, existem formas de convivência com uma estrutura de extrema pobreza, miséria, necessidades daquela população, de grupos armados, pode ser o Comando Vermelho, pode ser a milícia. Passa por um vereador, um deputado, pode ser um prefeito, isso está sendo articulado e estruturado ali. É uma população muito pobre? É. É miserável? É. Mas de alguma maneira rola ali uma troca. Vai ser o voto. ?Minha família tem dez pessoas. Somos pobres? Somos. Mas nós podemos vender o nosso voto para você.? É um ganho. É muito pontual, mas outros ganhos vão aparecer. Outras formas de sobrevivência surgem nesses espaços. Teria que ver quais ilegalismos funcionam ali.  Um relato que me chegou foi de que o Comando rouba no Arco Metropolitano, que passa ali ao lado de Belford Roxo, leva as mercadorias roubadas para essa comunidade que faz parte do Roseiral, e distribui para essa população. É outra forma de ganho para aquela população e de jogo de interesses ali, por parte daquele grupo armado.  Enfim, tem uma infinidade de possibilidades. Só fazendo trabalho de campo é que vamos observar as múltiplas possibilidades que se tem num território como esse. São pequenas, são poucas, mas existem, funcionam.  


 Km 32 


E muitas vezes não são tão pequenas e nem são poucas. Às vezes vão ganhar um destaque. Tem os comerciantes daquela localidade, alguma indústria, que tem seus interesses. Tem, por exemplo, uma grande multinacional. Ela se localiza do lado do Km 32 [da BR-465, antiga Rio-São Paulo], onde tem três grupos armados atuando, matando e fazendo desaparecer pessoas. Essa grande empresa tem seus interesses ali, numa área que foi, no passado, controlada pelo Terceiro Comando Puro e agora é controlada pela milícia. Tem que conviver com essa estrutura de grupo armado, tem que pagar, negociar. Uma empresa de grande porte. Vai apoiar um grupo armado, não vai querer o outro, em função de seus interesses. Isso é nítido, tem os relatos, está colocado ali, sabe-se.  

Tem todo um parque de logística colocado ao longo da Linha Vermelha, abrange Belford Roxo, vários municípios onde há estruturas de grupos armados. E tem o jogo da proteção, do ?arrego?.  Então, existem capitais internacionais, capitais nacionais, capitais locais, de diferentes escalas de valor. São múltiplos tabuleiros que se sobrepõem. É como andar em vários universos paralelos. É assim que eu me sinto em relação ao Km 32. Cada passo que eu dou ali eu sei que não é aquilo. Está se desdobrando para um monte de coisas que eu desconheço, mas sei que existem. De vez em quando me chega uma informação dessas. Em relação à grande empresa, a uma festa da milícia do lado de um depósito de bebidas que é ligado à milícia, do lado da Delegacia de Polícia às margens de uma rodovia federal, a BR-465. Como entender as múltiplas dimensões colocadas ali? E tem os detalhes de tudo isso.  


 Votação garantida sem controle  


Como a milícia exerce controle do eleitorado na vigência do voto eletrônico? Porque não tem cédula, não pode mais fotografar a urna.  


José Cláudio ? No passado, eles sabiam o número do título, a seção, a zona eleitoral, e faziam cálculos: Nós temos tantos votos na seção tal, é a população que estamos controlando aqui. Vamos contar e, se não votarem em nós, vamos caçar quem não votou. Era o terror. Isso servia também para um jogo de disputas internas, Fulano não votou, não tem vínculos com a gente. Era um jogo de denúncias, de ameaças, de terror puro. Isso está no passado. Hoje, quando se tem uma estrutura armada que permanece por muito tempo no território, não precisa mais disso. Hoje essas pessoas vão votar nos candidatos apoiados pela milícia porque vão ser beneficiados de alguma forma. Eles vão ter um status, proteção de seus interesses, negociação de alguma coisa para eles, vai aparecer como vinculado àquela estrutura de poder. Hoje o integrante de grupo armado é um benfeitor, a pessoa está comprando um terreno dele. Ou tem um parente que está precisando de ajuda. Tem os agiotas, que vão emprestar dinheiro ? a milícia faz agiotagem. Tem-se uma infinidade de possibilidades de ganhos que haverá a partir do vínculo estabelecido com o grupo armado naquele território. Tem a igreja. Não é só a estrutura do grupo armado, são as conexões. Uma estrutura de igrejas evangélicas, principalmente ? são as que mais se expandem e crescem ?, também se beneficia. Essa estrutura tem ganhos, o dízimo, a obra do salão, o transporte dos fiéis para uma grande ação de louvor no Maracanã, a compra de equipamentos de som da igreja. Há uma infinidade de interesses de comunidades que vão estabelecer conexões com esse poder, e vão se beneficiar com ele.  


Coisas visíveis que não são reais  


Serão vistos nas ruas, nas eleições de 2024, bandos de pessoas balançando bandeirinhas, com a camiseta do candidato, mas se saberá que aquilo não é real. O que está rolando por trás daquelas bandeirinhas são acordos muito mais amplos, de igrejas, de pastores, de comunidades, e votações todas fechadas. Aqueles cenários de bandeirinhas, de coisas visíveis, não são reais. Por trás daquilo tem cenários muito mais complexos, votações todas fechadas que vão dar os votos certos, alinhados com os acordos que foram feitos, os ganhos que estão estabelecidos para aqueles que vão votar, e para aqueles que agitam as bandeirinhas, eles terão a parte deles. Às vezes alguém mais consegue até colocar umas bandeirinhas, mas isso não expressa a votação real que vai ter.  


Normalmente, os que têm mais dinheiro vão se vincular à estrutura de grupos armados. Vão comprar as votações de grupos armados. A votação deles será mais eficiente ainda, porque outros candidatos não poderão fazer campanha ali. Haverá um controle sobre essa população, esse controle que eu mencionei, do jogo de interesses, dos ganhos, e da estrutura armada que está funcionando ali há muito tempo. A milícia tem muito dinheiro, vai dar dinheiro para os candidatos, para depois receber o retorno.  


Os candidatos apoiados por milicianos, principalmente para prefeituras, a milícia depois vai lá obter o seu ganho. Os contratos de obras... Aí se chega num ponto fantástico. Ficou todo mundo preocupado com o incêndio dos ônibus [outubro de 2023]. ?Puxa, incendiaram 35 ônibus, está um inferno.? Todo mundo apavorado. Mas aquilo ali não é nada. Aquele prefeito que recebeu grana na sua campanha é o prefeito que vai contratar as empresas vinculadas ao capital miliciano para fazer as obras daquela prefeitura.  


As prefeituras todas aqui da Baixada ? eu não saberia dizer uma exceção nesse universo ? vão contratar empresas cujo capital é majoritariamente miliciano. Não há investigação, não há nada que comprove. Como eu sei disso? Porque tem uns caras que sabem disso e me relatam. Uma pessoa que trabalha no setor respectivo de uma prefeitura me disse que não há obra que não passe pela estrutura miliciana. As máquinas usadas na obra, a contratação de terceirizados, tudo passa pela estrutura miliciana de empresas que são contratadas.  


Os ônibus incendiados são a parte mais visível do terror. É algo que funciona em determinadas conjunturas, determinados momentos. Mas a parte silenciosa, invisível, da grana dentro da estrutura pública, desses contratos, desses terceirizados, é algo muito mais forte, que vai ter uma penetração muito maior nessas comunidades, e que vai distribuir ganhos e recursos para essas áreas. É assim que funciona.  


 Um Brasil que ?dá certo?  


Deduz-se que é uma situação de ganha ganha. Não se vê quem perde.  


José Cláudio ? Exato. Você está tocando no Brasil que deu certo. É sério. A gente costuma falar: ?Não tem democracia. Isto aqui é uma barbárie, é uma zona.? Um sociólogo da USP, conceituado, já falecido, fez um artigo dizendo que o mundo pentecostal era a dimensão do atraso, incorporou aquele discurso dualista sobre o Brasil, ?o atraso no campo religioso está localizado no campo pentecostal?. Coitado. Ele foi incapaz de perceber que o mundo pentecostal é o mundo mais moderno, mais adequado ao universo neoliberal que se espraia no país como um todo, e que essa estrutura de toma-lá-dá-cá não tem nada de atrasada, de arcaica, é o mais moderno, é o que funciona, é o que deu certo. É o que faz o Brasil ser o que ele é. Os ganhos estão colocados para essa infraestrutura. Não é sempre igual à Baixada. Para cada região do país será preciso entender quais são os grupos que estão dominando. Veja-se o Pará. Tucuruí eu conheço. Os fazendeiros se juntaram e apoiaram o candidato XYZ lá. Esse candidato, eleito, não fez o que favoreceria esses fazendeiros. Porque estava querendo ajudar o povo, estava numa campanha de saúde pública, investindo em saúde. Fazem uma primeira conversa com ele, ele não entende o que estão querendo. Fazem uma segunda conversa. Nada. Começam a vir as ameaças. Em determinado momento o prefeito é assassinado. Vem a investigação. Quem mandou assassinar? Quem contratou os jagunços? A primeira investigação apontou que era a mãe do vice-prefeito, que assumiu no lugar do cara. É uma fazendeira. É uma estrutura de grupos que se valem da violência para colocar seus interesses. Quem se contrapuser a algum desses latifundiários e donos de agronegócios lá é um cara morto. Não tem nenhuma chance naquela região. É liquidado. Ele tem muito mais poder do que se possa imaginar. Pode-se ir para qualquer lugar. São mineradoras, é o agronegócio, são grupos ligados a tráfico de madeira, tráfico de armas, tudo que se possa imaginar de negócios legais e ilegais. A grande sofisticação da milícia, desses grupos, é que não se trata só do ilegal. Eles vão ter as duas dimensões muito bem articuladas. Então, não se consegue desmontar essa estrutura, ela vai funcionar. É o Brasil que dá certo. Enquanto se pensar que esse é o Brasil retrógrado, atrasado, que não deu certo, não se vai conseguir entender a realidade. Quando se consegue entender por que deu certo, como funciona essa estrutura, é possível perceber se existe alguma saída, alguma perspectiva de mudança. Mas nós ainda estamos engatinhando. Olhamos para isso e dizemos: ?É o dualismo, o atraso, um absurdo?. Tanto é assim que a estrutura vitoriosa no âmbito federal se associa a isso. O Lulinha Paz e Amor sabe disso, vai botar [no ministério] a Daniela do Waguinho. Depois queimou, ficou muito ruim, a mídia toda derrubou. Aí vai usar um subterfúgio, vai dizer que não foi por causa disso que a removeu, que ela foi para outro partido.  Todos os grupos políticos deste país parecem ter percebido que é isso que dá certo, que funciona. Então serão feitos acordos com essas estruturas.