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 Entrevista com Carlos Melo


"(...) Se o deputado faz o seu prefeito, faz o seu vereador, ele organiza a sua base para disputar a reeleição, dois anos depois. Então, a lógica se coloca toda no município. Sobretudo na eleição do prefeito."  Carlos Melo


O cientista político Carlos Melo constata que, na República de 1946 a 1964, a política se organizava em torno dos governadores, mas desde o advento da Constituição de 1988 ela envolve cada vez mais o Congresso Nacional, sobretudo a Câmara, que agora tem ?coronéis? municipais ligados à União, não mais caudatários dos chefes de executivos estaduais.


?A eleição municipal organiza o jogo?, diz Melo. ?Porque se o deputado faz o seu prefeito, faz o seu vereador, ele organiza a sua base para disputar a reeleição, dois anos depois. Então, a lógica se coloca toda no município. Sobretudo na eleição do prefeito?.


O professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) aborda a natureza própria dos pleitos nas grandes capitais, onde o jogo ultrapassa os marcos das disputas nas demais cidades, ?nacionalizando-se?, porque a lógica dessas capitais é a visibilidade. Perder nas maiores cidades simboliza uma derrota do presidente da República. ?Imagine se vence em São Paulo um candidato do Bolsonaro?. Este vai sair tocando o bumbo, ?dizendo que a joia da coroa, cidade de maior expressão, maior população, maior orçamento, deu a vitória ao candidato bolsonarista?, afirma.


Melo chama a atenção para a grande volatilidade do eleitorado paulistano, que com algumas exceções vota sempre, desde o fim da ditadura, no candidato de oposição ao prefeito ou seu indicado, seja de esquerda, seja de direita.


Sobre a influência de movimentos sociais no processo eleitoral, o cientista político chama a atenção para a fragmentação ?do campo democrático, progressista, da esquerda, como quer que se chame?, devido ao fenômeno do identitarismo, independentemente da justeza das causas reunidas sob essa denominação, enquanto o campo conservador, não só no Brasil, mas no mundo todo, não sofre com essa fragmentação.


Melo subscreve a tese de que o poder de grupos de interesse exerce grande influência nas políticas públicas municipais, caso notório dos setores imobiliário ? que hoje substitui a expansão territorial para as margens do município pela verticalização ? e de transportes. Acrescenta um dado relativamente novo a essa equação, o crime. ?São Paulo não tem mais uma boca de fumo autônoma. É tudo do PCC?, que ele qualifica como ?uma multinacional ancorada em São Paulo? e de cuja influência não pode mais do que suspeitar, já que não se trata de ações institucionalizadas.


Carlos Melo é mestre e doutor pela PUC-SP. Professor em tempo integral do Insper desde 1999, dá aulas nos cursos de Sociologia e Política (graduação), Estratégia e Política (mestrado) e Relações Governamentais. Analista político com participação em diferentes veículos de comunicação, palestrante e consultor de empresas nacionais e estrangeiras, é autor, entre diversos artigos e capítulos de livros, de Collor: o ator e suas circunstâncias (Novo Conceito, 2007).


A seguir, a entrevista, concedida a Mauro Malin em dezembro de 2023.


Como dimensionar a importância das eleições municipais para a política nacional?


Carlos Melo ? A política, na República de 1946 a 1964, se organizava muito em torno dos governadores. Mas de 1988 para cá, aos poucos, ela começou a girar ao redor do Congresso Nacional, sobretudo da Câmara. E a base dos deputados é o município. Não tem mais deputado de opinião. Mesmo os senadores, poucos são de opinião. A maioria deles são basicamente ? eu tenho uma perspectiva crítica ? vereadores federais. Porque vivem da negociação de recursos do governo federal para os municípios.


Nos últimos meses eu fiz meus alunos lerem Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal, e a ideia do coronel municipal, do município, mas não mais ligado ao governador, e sim à União, é muito forte. É impressionante como o livro, que é de 1948, é atual. Só que não tem mais o governador. É a figura direta com a União, e o intermediário é o deputado federal.


A eleição municipal organiza o jogo. Porque se o deputado faz o seu prefeito, faz o seu vereador, ele organiza a sua base para disputar a reeleição, dois anos depois. Então, a lógica se coloca toda no município. Sobretudo na eleição do prefeito.   


O que dizer da disputa em capitais dos estados mais importantes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte?


Carlos Melo ? São casos que diferem um pouco do que eu falei. Essa lógica clientelista acaba sendo menor, porque são municípios com forte orçamento ? São Paulo é o terceiro maior orçamento do país ?, precisam da União, mas a dependência de um deputado é muito menor.


A lógica dessas capitais é a visibilidade. O governo federal pode ter feito, dos 5.570 municípios, 90%. Mas se perdeu em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Fortaleza, perdeu a eleição. Estamos falando de visibilidade política nacional e estamos falando de orçamento também. Capacidade de se manter no noticiário, se manter vivo na política, durante quatro anos, autonomamente.


Então, perder em grandes cidades significa que você está derrotado. Não é à toa que Lula deu nó em pingo d?água para que a Marta Suplicy voltasse para o PT e fosse candidata a vice do Boulos. Olha o que é a política. Por quê? Porque para o Lula é importantíssimo fazer o Boulos. ?Ah, por causa do acordo de 2022, do Boulos ter saído da disputa estadual em favor do Haddad?? Não. Coisa nenhuma. É que, se perde em São Paulo, a impressão que fica é que o presidente da República perdeu a eleição municipal.


Quando ganha num grande município a impressão que fica é ?Olha, o presidente está bem?. Logo, a relação com o Congresso melhora. O contrário também é verdadeiro. Perdeu nesses municípios, a dependência em relação ao Congresso piora.  


Até que ponto o embate na capital paulista será nacionalizado, ou seja, colocará em confronto, diante do eleitor, os grandes blocos rivais no país, esquerda e direita, ou, respectivamente, governo Lula e a oposição a ele?


Carlos Melo ? Podemos falar em governo Lula e oposição bolsonarista. Até porque a oposição de centro não existe mais. O PSDB desapareceu, e o centro que não é petista nem bolsonarista é fisiológico. Não é oposição necessariamente. É adesista, por princípio. Então, é lulismo versus bolsonarismo.


Bem, é a imagem. Imagine se vence em São Paulo um candidato do Bolsonaro. Ele está aí para tocar o bumbo, usando a expressão que Fernando Henrique usava. Vai sair tocando o bumbo, dizendo que a joia da coroa, cidade de maior expressão, maior população, maior orçamento, deu a vitória ao candidato bolsonarista.


Nesse jogo de sombras e máscaras, jogo de cena da grande política, da disputa entre lulismo e bolsonarismo, São Paulo é onde há a maior visibilidade. Ganhou aqui, ganhou a eleição. Perdeu aqui, perdeu a eleição. Claro que não é tão simples assim. Claro que é preciso colocar o resto do país, orçamentos, somar votos. Mas em termos de visibilidade é inegável.


Para o Lula é muito importante fazer um candidato, e o PT não tem um candidato, o mais viável é o Boulos, e para o Bolsonaro é importante fazer um candidato, mas que seja um candidato dele, que fale em nome dele. Então, ele ficou muito arredio, muito precavido com relação ao Ricardo Nunes, porque o Ricardo Nunes queria o apoio do Bolsonaro mas não queria aparecer como ?o? candidato do Bolsonaro.


O grande problema é que São Paulo é muito volátil. A grande constante de São Paulo é a volatilidade. Neste momento o eleitor paulistano parece ser antibolsonarista. Então, não é tão fácil para o prefeito Ricardo Nunes simplesmente sair por aí dizendo que ele é bolsonarista de carteirinha, porque ele pode se fechar para a maior parte do eleitorado. Pode se fechar para sessenta, sessenta e poucos por cento do eleitorado, e perde a eleição.


É um cálculo sempre muito delicado. E é claro: quem ganhar a eleição aqui vai tocar o bumbo dizendo que ganhou a eleição nacional.


Essa porcentagem que você cita representaria a rejeição ao Bolsonaro em São Paulo?


Carlos Melo ? O Haddad ganhou a eleição em São Paulo na disputa com Tarcísio de Freitas, por exemplo [para governador, em 2022]. Ganhou na Grande São Paulo.


São Paulo é interessante. Elegeu Jânio, que era oposição ao Montoro. Elegeu Erundina, que era oposição ao Jânio e ao Maluf. Elegeu Maluf, que era oposição a Erundina. Elegeu Pitta ? aí, sim, houve uma continuidade ?, elegeu a Marta, que era oposição ao malufismo. Elegeu Serra, que era oposição a Marta. Elegeu Kassab, que foi uma continuidade, mas elegeu Fernando Haddad, oposição ao Kassab. Elegeu o Doria, oposição ao Fernando Haddad. E elegeu o Bruno Covas dentro daquele drama todo, que juntou a pandemia e o câncer [de Covas, que morreu no exercício do mandato].


De 1985 para cá se pode perceber que São Paulo tem um pendor oposicionista, de ser contra o prefeito. Precisava fazer um levantamento. A reeleição [1997] foi feita para... reeleger. Em São Paulo houve dois prefeitos que não se reelegeram, independentemente da qualidade do governo deles. No país um único presidente da República não se reelegeu [Bolsonaro]. Em São Paulo, dois prefeitos. No estado de São Paulo, fora aqueles que eram vices e assumiram, caso do Márcio França e do Rodrigo Garcia, os titulares sempre se reelegeram. Na capital, não. Há uma cultura oposicionista e um eleitorado bastante volátil na cidade de São Paulo. Essa disputa é sempre mais acalorada.


Interessante. Dizia-se isso do eleitorado carioca, nos anos 60 e 70. Negrão de Lima foi eleito governador da Guanabara contra o candidato de Carlos Lacerda, que tinha sido um dos defensores do golpe de 1964. Depois houve outros processos eleitorais que deram essa conotação oposicionista. Hoje é diferente. Hoje a oposição que se elegeu no Rio foi, entre outras, aquela ligada ao fenômeno do bolsonarismo.


Carlos Melo ? Seria interessante fazer um cruzamento dessa expansão territorial do Jair Bolsonaro com milícias e que tais. Também houve uma expansão territorial das milícias. E tem um estudo de um mestrando que eu tenho acompanhado, discutido, onde ele capta o crescimento do Bolsonaro onde há crescimento do poder político dos evangélicos.


Esse mestrando nota que quando os evangélicos ganharam a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, com Marco Feliciano, em 2013, ninguém deu muita bola para aquilo, achou-se que foi uma excrescência, mas eles tomaram uma pauta, montaram uma agenda. E o Bolsonaro começou a seguir aquela agenda. O discurso do Bolsonaro não é religioso, mas é um discurso que condiz com aquela agenda de costumes. Então, ele vai crescendo também.


Na verdade, o maior mal para a humanidade nos últimos 50 anos foi um sujeito chamado Karol Vojtyla, que trocou a Teologia da Libertação por esse evangelismo que está aí, que entrou nas comunidades e está levando tudo.


E que no Rio tem muita ligação com a milícia.


Carlos Melo ? É verdade. Esse último livro do Bruno Paes Manso, A Fé e o Fuzil, tem um personagem que é evangélico e miliciano. Ele parte da ideia de que ele está ali para defender um jeito de ser, uma forma conservadora de enxergar o mundo. Ele é bandido, mas tem valores conservadores, machistas, patriarcais. Toda a pauta de direitos humanos, direitos civis, é progressista, é avessa à pauta dele. E não estão só na milícia. Estão no Comando Vermelho, no Terceiro Comando, eles têm hoje os ?guerreiros de Cristo?, que são caras que traficam e que participam dos cultos nas comunidades, nas favelas.


Uma mudança estrutural, complicada, perigosa.   


Você vê possibilidade de influência, na campanha eleitoral, de movimentos sociais (os ligados ao campo democrático e os, talvez negligenciados, do campo adverso, entre os quais podem ser incluídas várias iniciativas de igrejas evangélicas)?


Carlos Melo ? Tem. É um problema sério. Quando se fala hoje de movimento social, no campo democrático, progressista, no campo da esquerda, como quer que se chame, fala-se de algo muito fragmentado. Os movimentos identitários, todas as lutas, tudo isso é justo, não estou discutindo a justeza desses movimentos e a razão de ser deles. A questão é que eles fragmentam muito mais do que unem. Enquanto no campo conservador ? isso não é só no Brasil, é no mundo todo ? não se tem essa fragmentação. Tem-se uma pauta conservadora, e pronto, acabou. Não se tem uma pauta sendo dividida em feministas, LGBTQIA+, negros, e assim vai. Por outro lado, aqueles movimentos sociais clássicos, o sindicato, o Movimento dos Sem Terra, em São Paulo o Movimento dos Trabalhadores sem Teto, que terá um candidato, não vejo neles capacidade de grande mobilização. Os antigos movimentos que unificavam uma agenda, uma pauta, desapareceram, se enfraqueceram. Os novos movimentos são, repito, fragmentados, fragmentam ainda mais as forças progressistas, enquanto o movimento conservador é uno. Eu diria que quando chegar o mês de outubro de 2024, estaremos entre o primeiro e o segundo turno, se terá a Marcha de Deus com a Família talvez mobilizando muito mais gente em São Paulo do que a chamada Parada Gay, hoje Parada LGBTQIA+. São dois momentos estrondosos de gente na rua, só que o movimento conservador acaba mobilizando e de alguma forma focando em determinados objetivos políticos, muito mais do que a própria esquerda. Isso para não falar de redes sociais, o que não me atrevo a fazer, porque entendo mal. Mas vamos lá. É difícil dizer, porque as redes sociais, como nós conhecemos na última década, o Facebook, o Instagram, o Twitter, que hoje se chama X, isso tudo mudou, está perdendo importância. O Instagram está lutando para sobreviver, está disputando espaço com o Tik-Tok, e os que tinham mais proeminência política, que eram o Facebook e o Twitter, estão perdendo importância, usuários, milhões de pessoas por ano. Essas pessoas estão indo para outras redes. E não conseguimos saber qual é a importância, por exemplo, dos grupos do WhatsApp, qual é importância desses outros esquemas de comunicação, que não têm um locus. O Facebook tem um locus. Você digita ?Facebook? e cai numa malha, você vê sua rede. Enquanto o WhatsApp, não, são vários grupos, que acabam se articulando, fazendo novas conexões. É mais difícil gerir isso. Quem estuda essa questão atentamente fala que estamos passando por uma transformação profunda, constante, nesse campo, porque ele vai mudando todo dia, de acordo com a mudança da tecnologia, que é vertiginosa.   


Como caracterizar, historicamente, as relações do prefeito com a Câmara Municipal de São Paulo?


Carlos Melo ? Sempre foi uma relação clientelista. O vereador representando um bairro, associações de amigos de bairro, algo antigo em São Paulo, e o vereador levava benefícios para o seu bairro. Escola, água ? encanamento; vai-se dizer que a Sabesp é estadual; sim, mas com grande participação dos municípios. Então, é uma relação clientelista que dependia muito da máquina. Só que hoje tem um fenômeno que vamos precisar entender melhor, que é o crime. Trata-se de outro tema que eu também não domino, mas está colocado na pauta. São Paulo não tem mais nenhuma boca de fumo autônoma. É tudo do PCC. Diz-se aí a boca pequena que ?a vereadora Fulana é ligada ao PCC?, ?Ciclana é ligada com o PCC?. O PCC tem o controle de vários bairros. Ou melhor, ele estabelece a paz ou a guerra em vários bairros. Então, a relação do prefeito com o vereador não é tão simples, porque pode estar intermediada por esse outro ator que surgiu nos últimos anos, mas que não é institucional. Pelo menos não está institucionalizado, não se consegue ver. Vamos chamar de forças ocultas, ou qualquer termo que possamos utilizar para defini-las. Acho muito mais difícil. Como estão esses interesses? Interesses de um grupo... hoje é uma multinacional. Ancorada em São Paulo. Eu diria que há aí uma agenda de estudos muito promissora para quem literalmente se aventure por esse tema. Porque eu acho que tem hoje uma penetração na política que ainda não conseguimos avaliar. Quero deixar bem claro: essa é uma percepção pessoal. Não tenho dados para corroborar essa percepção. Mas é a que tenho. 


A influência de grupos de interesse em áreas sensíveis, como os setores imobiliário e de transportes públicos, e eu diria também de segurança pública, é capaz de barrar ou distorcer políticas públicas mais ambiciosas no sentido da redução das desigualdades sociais?


Carlos Melo ? O caso dos interesses imobiliários é clássico. Qualquer curso antigo de urbanismo mostrava como a especulação imobiliária criava bairros distantes, populares, para especular com todo o trajeto do Centro até o bairro distante. É claro que influenciava políticas públicas. Cria-se um bairro lá no extremo leste. Para chegar até lá serão necessários os transportes. Serão necessários os postos de saúde, escolas, um monte de coisas. Esse é um movimento que o capital imobiliário sempre fez. Hoje me parece que é menos no sentido de apostar em longas distâncias, para se especular com o trajeto, mas muito mais pela verticalização.

E quando se fala de verticalização numa cidade como São Paulo está-se falando de uma política pública fundamental, a política de mobilidade urbana. Há um interesse ali, já colocado, o da especulação imobiliária, agora vertical, que vai trazer um grande problema de mobilidade urbana. Transporte, talvez a gente precise voltar para aquele tema anterior. Não é institucionalizado. Quem está controlando o transporte, hoje? Nós soubemos que no passado, quando houve aquela onda grande de vans, peruas, aquilo ali passava muito por lavagem de dinheiro de grupos ligados ao crime. Elas desapareceram. Mas nesse processo desapareceu a influência nos transportes? Eu não sei, mas desconfio de muita coisa. Precisava investigar. Claro que esses interesses alteram o desenho da cidade, mexem com a territorialidade e vão, portanto, exigir políticas públicas diferenciadas.


Você veria na gratuidade dos transportes no domingo alguma correlação com esse jogo de interesses?


Carlos Melo ? Não posso afirmar. Até porque correlação não é causalidade, a gente tem que relembrar o tempo todo. Agora, que tem um grau de oportunismo político muito grande, tem. A gratuidade no domingo virá acompanhada do aumento das tarifas na segunda-feira [a tarifa de integração passou em 1/1/24 de R$ 7,65 para R$ 8,20, aumento de 7,1%]. ?Não, mas a tarifa não aumenta há quatro anos?. Então, ela precisa ser reajustada e ao mesmo tempo vem gratuidade? É melhor não dar gratuidade e não reajustar. Ou ajusta em menor proporção. Tem um componente muito grande de marketing político. Por mais que haja movimentos antigos em São Paulo defendendo a tarifa zero, a gratuidade o tempo todo, não é uma política para ser feita no domingo. Ou se discute o transporte urbano de uma forma mais ampla, mais sistêmica, ou essa coisa do domingo é um símbolo... tem toda a cara de oportunismo político. É aquela história: tem rabo de porco, tem nariz de porco, tem pata de porco: é porco. Me parece que é o caso dessa gratuidade. ?Ah, mas é bom para a população?. Seria ótimo não aumentar a tarifa também.


E a questão da segurança pública? O eleitor sabe que os instrumentos, nessa esfera, estão basicamente nas mãos do governo do estado e do poder judiciário estadual e federal?


Carlos Melo ? Não, não sabe. Quando você está falando de eleitor você está falando de muita gente. E temos um problema de informação, de educação, de envolvimento com a política, mesmo. O que se chama de governo no Brasil é uma coisa muito genérica. Será que a pessoa que fala ?governo? genericamente fala governo federal, estadual e municipal? E será que ela consegue distinguir o que é contribuição de cada um deles? Eu diria que as pessoas olham para o governo de uma forma geral. Por exemplo, aumenta a insegurança, o responsável é o governo estadual. Mas se o governo federal se omitir diante disso ele dança. E o prefeito. Aumentou a insegurança no bairro XYZ, o prefeito vai ser cobrado também. Não adianta ele dizer ?Mas isso é um problema do governo do estado?. Porque na nossa cultura quando se fala em governo se fala de uma forma muito ampla, sem fazer essas ponderações todas, essa divisão entre os entes federativos. Isso não passa pelo eleitor comum. Então, quando se fala de segurança, é a polícia. Se é a polícia estadual, municipal, se é a polícia do Lula, do Tarcísio, do prefeito, é de quem? É a segurança. Eu diria que dívida nesse campo todo mundo paga. E quando se pega um cara como o Lula, politicamente sensível ? não é que ele é sensível para o drama social; podemos até dizer que seja ?, não dá para ele dizer ?Não, não, não, isso é um problema dos governadores?. Não dá. O Bolsonaro dizia isso: ?Ah, não é problema meu. Vai lá no Doria?. Mas o Bolsonaro estava sempre falando para o eleitor dele, e o eleitor dele aceitava isso. Agora, quem quer falar com um eleitorado mais amplo não pode se permitir dizer ?Olha, isso é questão do município, não é do governo do estado; não é do município, é do governo do estado; não é do governo do estado, é do governo federal?. Quando se faz uma crítica ao governo se está fazendo uma crítica a todo mundo ao mesmo tempo.